Perambulando
Duas pesquisadoras, um festival
Pesquisa Talks é uma newsletter quinzenal feita por duas pesquisadoras de conteúdo para projetos audiovisuais.
Por Barbara Heckler e Camila Camargo
Cara ao sol
Foi ainda no primeiro semestre quando um amigo e produtor me deu a letra: “Você precisa ir ao FRAPA!”. Eu, ávida em conhecer mais roteiristas, num novo momento de enveredar para pesquisa em ficção (sem nunca deixar o documentário de lado), achei que poderia ser um celeiro de boas trocas estar num festival dedicado à profissão e em Porto Alegre - uma cidade que pouco conhecia.
Joguei a ideia pra Camila. Conhecendo sua personalidade em topar boas viagens e encontros, tinha certeza de que a resposta seria SIM. Não falhei - inclusive na escolha de uma ótima parceira de Airbnb e festival.
Para nós, freelancers do audiovisual, que vivemos em sua maioria encapsulados dentro de casa, esse momento é propício para botar a cara ao sol. E que sol! A capital gaúcha nos presenteou com dias claros, excelente clima para conversar sentados ao ar livre, num café no meio do Centro Cultural Mario Quintana, onde acontecia o evento, ou no bar Lola, na cobertura do conjunto.
Acho que esse foi o ponto alto da semana. Havia tempos que eu não participava de um evento de cinema e circulava, me mostrando em carne e osso. E o FRAPA, além de reunir roteiristas, também atrai diretores, produtores e players em busca de novas histórias. Entre uma palestra e um workshop, não era difícil trombar com uma pessoa interessante e conversar, de forma despretensiosa. Num fim de tarde, por exemplo, sentamos eu, Camila e três produtoras à mesa, com vista para o pôr do sol no lago Guaíba. O assunto passou longe de trabalho, mas sim sobre menopausa, filhos e a vida no interior versus a caótica São Paulo. Com certeza, um papo bem mais memorável do que a frieza de: “em que projeto você está agora?”.
Embora encontros leves, não deixaram de ser demandantes de energia e presença. Me vi na quinta-feira, no fim do dia, sentada num degrau, imaginando minha mala sendo fechada. A passagem de volta era só na sexta à noite, mas, para mim, senti que já tinha cumprido o que me propus a fazer ali. Na manhã seguinte, depois do café, o sol tinha ido embora com o anúncio do ciclone alarmante. Bateram meus cinco minutos, peguei minhas coisas, me despedi da Camila (que tem mais energia do que eu) e parti para o aeroporto. Por sorte, cheguei na hora do almoço em casa, dei um beijo saudoso na filhota animadíssima em me ver e voltei à boa e velha rotina atrás do computador.
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BARBARA pesquisa próximos festivais para se aventurar
POA a pé
É bom estar errada. Nem sempre, claro. Mas sobre Porto Alegre sim. Não que eu tivesse algo contra a capital gaúcha, mas confesso que sem saber o que esperar, esperava pouquíssimo da cidade sede do FRAPA, festival de roteiro audiovisual que acontece anualmente. Sobre o evento, porém, havia escutado mil elogios. Todos justos. Realmente, eles conseguem o fino equilíbrio entre prospecção de mercado e troca de ideias, sem aquele clima de “ora-vejam-como-sou-incrível”.
E não só a atmosfera é um bombom, como vem embalada nesse prédio apaixonante, que parece ter saído de um filme de Wes Anderson. Conhecido por “Hotel Majestic” até os anos 1980, quando foi comprado pelo Banrisul, o local ganhou o nome do seu morador mais célebre ao ser convertido no Centro de Cultura Mário Quintana. Poeta do cotidiano, dá para imaginar o que o levou a querer morar nesse lugar, mesmo antes dele ser pintado com esse lindo tom de rosa ou Impatiens Pink, como me informou com precisão o site da Pantone.
São dois prédios unidos por passarelas, com tudo que um centro cultural tem direito: sala de cinema, auditórios, exposições, teatro, restaurante, bar e livraria. E fica no miolo da cidade, tipo de lugar interessante por definição em qualquer parte do mundo. Caminhando pelos arredores — e tem jeito melhor de pisar numa realidade do que com os próprios pés? — deu pra curtir o fervo delicioso de pessoas se esbarrando, papeando, e ainda topar com alguns lugares… curiosos.
Ávidas por um docinho de final de tarde, Barbara e eu entramos desavisadas pela porta do Café Mal Assombrado, um casarão de 1915 decorado com arquivos de crimes e lendas urbanas da capital. Um dos mais clássicos teria acontecido ali mesmo e é conhecido como "os assassinos da rua arvoredo”. Em 1863, o casal José Ramos e Catarina Palsem teria usado a carne de suas vítimas para fazer linguiças. Alheios ou não a esse fato, no dia da nossa visita velhinhos e jovens duelavam num emocionante campeonato de xadrez, ao cair da tarde.
Em outra pernada, voltando do festival para o AirBnb, encontramos o pomposo Café da Catedral. Com uma energia de festa de debutante, fica num jardim e pode ser acessado por uma ruela, que passa quase desapercebida entre a Catedral Metropolitana e o Palácio Piratini. Na entrada, uma estátua de Leonel Brizola com o seu característico dedo em riste tornou tudo um pouco mais inusitado.
Aliás, dando sequência nas descobertas: quanto café! Minha ideia fantasiosa dos porto-alegrenses era geral com um chimarrão na mão. Mas, em igual ou maior proporção, encontrei fanáticos por um grão que nem sequer é produzido ali em larga escala. A turma do Café do Mercado bolou até uma “cafeoteca”. Vale conhecê-los em uma visita ao Mercado Público, o mais antigo do Brasil.
Taí outra parada imperdível. Noz pecã glaceada, sagu e cucas de sabores variados dividiram a minha atenção com os corredores repletos de lojas de umbanda e candomblé. Eu sabia que o Rio Grande do Sul tinha a maior proporção de praticantes de religiões afro brasileiras do país, mas ver o Assentamento de Bará, localizado nesse mesmo Mercado, não deixa dúvidas. Relacionado aos negócios e à prosperidade, é o orixá que abre caminhos. Síntese perfeita da experiência, me despedi do FRAPA e de Porto Alegre já pedindo a benção pra voltar 🧳.
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CAMILA pesquisa realidades caminháveis
🎒Uma Dica de Cada
[Barbara] Não param de abrir restaurantes novos pelo bairro da Pompeia, zona oeste de São Paulo. Com uma entrada que remete a um bar de praia, La Perla - Caribe na Rua é peculiar pela gastronomia venezuelana. Uma deliciosa arepa recheada com carne, feijão, abacate e outros complementos, vale por uma refeição inteira. No cardápio também tem frutos do mar e peixes. Só se prepare pra sair com um pouco de cheiro de fritura, o que não ofusca definitivamente a experiência.
[Camila] Chica Parrilla y Bar: Antes de dar tchau pra Porto Alegre, Barbara e eu usamos a última barrinha de bateria pra ir a uma boa casa de carnes, por motivos de “estamos na capital mundial do churrasco”. Em busca de algo que ficasse entre o clássico e o contemporâneo, chegamos então a esse restaurante, com uma parrilla gigante ao estilo uruguaio, bem no centro do salão. Das labaredas saíram iguarias suculentas, que comemos felizes, um marco curioso na minha biografia, já que fui vegetariana até os 30 anos de idade. Mas isso é tema para outra edição.
🗃️ Baú da Peta
Ao Lu, com carinho - Luto, amizade e reverberações do amor








